Por Gabriel Fabri
No último longa-metragem de Stanley Kubrick, "De Olhos Bem Fechados", o personagem de Tom Cruise, um médico bem sucedido, vive uma estranha e erótica jornada madrugada adentro. O filme é uma adaptação de "Breve Romance de Um Sonho", de Arthur Schnitzler, e transporta a aventura na Viena do início do século XX para Nova York, no final desse período. Nessa história que poderia se passar em qualquer cidade do mundo, em qualquer época, o personagem encontra uma sedutora (e também assustadora) sociedade secreta do sexo.
Marcos Nogueira, jornalista e ex-editor da revista VIP, visitou orgias no Brasil e ao redor do mundo para escrever o livro-reportagem "Sociedade Secreta do Sexo" (Editora Leya). Participou, como voyeur, de festas das mais exclusivas, daquelas com seleção minuciosa para entrar e até locais secretos, revelados um pouco antes da hora do encontro.
Se a associação do nome do livro de Nogueira com o longa-metragem de Kubrick parece impossível de não ser feita, é verdade que o filme é uma inspiração estética para muitas dessas festas. Mas Nogueira afirma que não passa disso. "Não rolam rituais macabros, e todos sabem quem são as pessoas atrás das máscaras".
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| Cena de "De Olhos Bem Fechados" |
Sadomasoquismo, quando aparece, fica restrito à fantasia ou a apresentações de dançarinos contratados. Na primeira "reunião" citada no livro, por exemplo, acontece um show fetichista, em que uma atriz é amarrada e pendurada num gancho, para criar um clima na festa como o do filme. Após essa apresentação, vale ressaltar, começa a tocar a mesma música de György Ligeti (Musica Ricercata II) usada na obra de Kubrick em um de seus momentos cruciais.
O jornalista afirma que a expressão "sociedade secreta" veio, a priori, de maneira metafórica. "Seria um jeito de tratar de um grupo que tem seus códigos próprios e foge do holofotes por razões um tanto óbvias". Mas ele logo descobriu que os "swingers e afins" se organizam mesmo em comunidades fechadas.
Como toda sociedade tem suas regras, com essa não poderia ser diferente. Nogueira enumera as principais: tudo precisa ser consentido e consensual; a negociação entre os casais é sempre feita pelas mulheres; é preciso discrição com as pessoas de fora; cortesia e educação são sempre bem vindos. Quem tiver bom senso, também não fará nada que cause ciúmes no próprio parceiro. Afinal, o swing pode ser considerado um "adultério consentido", com a autorização - e até a presença - do outro membro do casal.
O casamento monogâmico entre um homem e uma mulher é considerado sagrado nesse meio, para a surpresa de muitos. Se o nome "swing" é relacionado ao estilo de jazz, por causa da liberdade nos movimentos da dança, a liberdade nessa "dança" tem limites, que são definidos pelo próprio casal (ou casais).
O casamento monogâmico entre um homem e uma mulher é considerado sagrado nesse meio, para a surpresa de muitos. Se o nome "swing" é relacionado ao estilo de jazz, por causa da liberdade nos movimentos da dança, a liberdade nessa "dança" tem limites, que são definidos pelo próprio casal (ou casais).
| Lançamento do livro no bar Estônia foi marcado pela presença de leitores mascarados |
E como ficou o jornalista diante de tudo isso? No livro e em seu blog, Nogueira alega ter participado sim das orgias, mas como voyeur. Ou seja, ficou só chupando os dedos, observando. E isso configura também uma participação importante: como o swinger é um exibicionista, a figura do voyeur é essencial para a dinâmica. Quanto à apuração, Marcos conta que não foi fácil. "É desafiador porque coloca você em contato com fantasias às quais você não sabe como vai reagir. Mas sem dúvida é prazeroso".
O que mais surpreendeu Nogueira durante a apuração foi justamente o conservadorismo nessas comunidades. A homossexualidade masculina é um forte tabu. E, caso um parceiro faça algo sem o consentimento do outro, "configura-se uma traição tão grave quanto em qualquer relação monogâmica". O jornalista sintetiza: "o swing, afinal, é um meio que alguns casais encontram para dar vazão a certas fantasias sem abrir mão da monogamia".
Entretanto, se existe conservadorismo nessas redes sociais, a sua presença fora delas é o motivo de tanta discrição. Marcos acredita que a maneira conservadora como a sociedade vê o sexo tende a aumentar e diminuir dependendo do ciclo histórico, mas que o forte conservadorismo de hoje pode ser menor no futuro. "Ele sempre diminui quando aumenta o conhecimento", ressalta o jornalista.
"Depois de conviver brevemente com os swingers, entendi que seu modo de vida só diz respeito a eles mesmos". Marcos Nogueira quebrou os preconceitos que tinha em relação a esse grupo e torce para que os leitores de "Sociedade Secreta do Sexo" também façam o mesmo. "Espero que o livro faça algumas pessoas encararem com mais naturalidade certas
coisas das quais elas têm medo ou preconceito por pura falta de
conhecimento", conclui. Foi, pelo menos, o que aconteceu com ele.
Livro:
Sociedade Secreta do Sexo
Marcos Nogueira
Editora Leya
R$ 34,90

