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quinta-feira, 5 de junho de 2014

" O homem contemporâneo é um grande voyeur " - Entrevista Clemara Bidarra


Cena de "Ninfomaníaca - Volume II"
Por Camila Forte

Homens que se encontram ao redor de um lago para fazerem sexo. Garotas que viajam para festejar de biquíni no verão californiano e se envolvem com um perigoso traficante. Uma estudante universitária que está descobrindo a sua sexualidade e começa a se sentir atraída por uma mulher de cabelo azul.

Há pelo menos três pontos em comum entre esses enredos: todos deram origem a alguns dos filmes mais polêmicos de 2013; esbanjam sexualidade, quando não de cenas de sexo explícito; e os três figuram no topo da lista dos melhores do ano da revista francesa Cahiers du Cinema (publicação que no passado teve influência inegável na história da sétima arte), desbancando concorrentes como os oscarizáveis “Lincoln”, de Spielberg, e “Gravidade”, de Cuarón.

Estamos falando, é claro, de “Um Estranho no Lago”, “Spring Breakers – Garotas Perigosas” e “Azul é a Cor Mais Quente”, respectivamente. Dificilmente alguém discutirá a produção de cinema de 2013 sem citar um desses badalados e controversos longas-metragens, dois deles premiados no Festival de Cannes (o terceiro levou a cobiçada Palma de Ouro, o principal prêmio). Injusto não destacar o ainda mais polêmico “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, entre os principais filmes do ano passado (a obra começou a chegar aos cinemas a partir do dia 25 de dezembro – sim, no natal – repleto de mistério e um poderoso marketing, mas entrou mesmo no mercado mundial no início de 2014).


Divulgação de "Spring Breakers"

A questão é: o mundo pode até estar mais conservador, mas com certeza o cinema tem encontrado criativas maneiras de provocá-lo com qualidade. Chama a atenção que os três filmes na lista da Cahiers sejam tão, digamos, picantes. Mas o erotismo no cinema não é novidade, e já esteve presente em clássicos que vão do pop “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, ao hermético “Je Vous Salue, Marie”, de Jean-Luc Godard.

Para conversar sobre o tema, entrevistamos Clemara Bidarra, Doutora em Comunicação e Letras pela UNESP/Araraquara e autora do livro “Erotismo: múltiplas faces” (LTCE). Para ela, a produção do cinema erótico hoje permite uma ruptura com o que é previsível e esperado pelo público.

Confira a entrevista:

De maneira sintética, o que é erotismo?


O erotismo diz respeito à sexualidade humana. Toda vez que você pensar em relacionamento sexual humano, você está falando em relacionamento erótico.


Cena de "Um Estranho no Lago"

Muitos confundem erótico com pornográfico. Para você, qual é a distinção?

Existe uma tendência da maioria dos teóricos de tentar decodificar erótico e pornográfico como sendo instâncias muito distintas. Muito mais por uma questão de vulgaridade e nobreza: o vulgar é o pornográfico, e o que é mais nobre, mais artístico, é o erótico. Eu diria que dentre essas classificações hoje, a mais expressiva é que, enquanto o erótico aborda as coisas mais sutis da relação, o pornográfico aborda as mais explícitas.

Mas a Camile Paglia, que é uma teórica que eu gosto muito, costuma dizer que a diferença entre erótico e pornográfico está dependendo do lugar da parede em que você se encontra. Se é você que está praticando o ato, vai chamar aquilo de erótico; se os outros estão assistindo, vão chamar aquilo de pornográfico.

Ano passado nós vimos erotismo em muitos dos principais filmes do ano. O cinema está ficando menos conservador? E a sociedade, em relação a esse tipo de conteúdo?

Eu não acho que o cinema esteja ficando menos conservador. Na verdade, ele sempre foi muito pouco conservador. Mesmo na época da censura do Código Hays, o cinema sempre tentava burlar as normatividades. Ele continua dentro do mesmo mecanismo. O que acontece é que a sociedade acaba tendo uma necessidade de outro viés de olhar. Por isso acho que esse temática vem sido muito repetida recentemente.

Como você avalia essa produção recente?


Ela é muito madura. A produção recente tem enfoques que não são só de um erotismo que tem a ver com um olhar perpendicular, de cima para baixo. Então eles saem um pouco dos guetos, como "Um Estranho no Lago" e o "Ninfomaníaca", por exemplo. É sempre muito interessante sair do comportamento esperado, previsível. Esses filmes são uma ruptura com esse olhar, são experiências mais novas, que estão sendo trazidas de eixos diferenciados.

Cena de ''Azul é a Cor Mais Quente"


Quais as principais características do erotismo no cinema?

Se você for pegar nos anos 1930, as pessoas falavam que "nada mais erótico do que um homem galanteador dizendo para a mulher que adora ouvir a voz dela". Isso era o máximo de erotismo que se podia ter. Agora, quando você pensa hoje, são aquelas características que fazem com que você desperte o seu olhar para um desejo que você não realizaria na sua vida, então você deixa que o cinema faça isso por você. O cinema vai funcionar como uma catarse.

Por exemplo, "Um Estranho no Lago". Algumas pessoas podem achar absolutamente indecoroso uma praia específica para "pegação". Só que esses lugares existem. O que acontece? Dentro desse mecanismo do olhar erótico, esses lugares são trazidos à tona para um olhar novo com uma característica antes não visualizada, que seria esse lado homossexual da pegação. E hoje você vê isso com naturalidade. Inclusive, é interessante como os personagens dentro do filme tem olhares distintos de referência: um é o voyeur, outro é passivo, o ativo, o calado... Esses personagens todos dão um olhar novo para essa competência erótica. Eles fazem com que algumas coisas saiam dos nichos mais "obscuros" e são vistos sob uma perspectiva nova.

Em um cinema, o espectador se coloca na posição de voyeur. Um filme pode ser considerado, por natureza, erótico, na medida em que as pessoas que assistem a um longa-metragem estão necessariamente desejando a experiência?


Com certeza, todo espectador é um grande voyeur. Inclusive, sob o ponto de vista que a gente acaba substituindo a representação icônica do buraco da fechadura para ser espiado, que é a representação do voyeur (ou o binóculo, para ver ao longe), pela tela. Ao invés de espiar pelo buraco você espia pela tela do cinema, do computador, do celular – não só vendo filmes, mas também acessando as redes sociais. Isso tudo é uma grande tendência de voyeurismo: o homem contemporâneo é um grande voyeur.

Cena de 'Ninfomaníaca - Volume II'
  
Tratando de erotismo, qual você considera o filme mais icônico?

Ai é fogo, né? É perguntar de que filho você gosta mais (risos). Temos várias possibilidades, um que se dá sob a perspectiva do alimento, do toque, do olhar... difícil elencar qual mais importante. Acredito que “A Lei do Desejo” do Almodóvar é um grande marco, “9 e ½ semanas de amor” também, “Anticristo” do Lars Von Trier, e “Je Vous Salue, Marie”, do Godard: filmes cujo erotismo aparece sob uma perspectiva muito diferente em cada um deles. Enquanto representação icônica, todos esses e milhares de outros têm características bastante marcantes.

Cena de A Lei do Desejo, de Almodóvar
 
Algumas cenas eróticas no cinema viraram clichê?

O clichê é um mecanismo bastante saudável quando a gente fala de linguagem, porque ele faz com que você reconheça alguns estereótipos mais mecânicos. E eu acredito sim que têm muitas cenas que viraram clichê. Se você pensar no “Último Tango em Paris”, nunca se vendeu tanta manteiga (risos).

Pouca gente sabe, mas o erotismo também está relacionado com a morte. Como se dá essa relação de morte e prazer?

A relação entre morte e erotismo foi muito bem trabalhada por George Bataille. Segundo ele, quando você alcança o êxtase, você na verdade atinge a morte, que é como se fosse o equilíbrio de todos os desejos compulsivos que você tem. Então você precisa viver ao máximo e para começar a se recarregar é como se você morresse e tivesse uma nova vida. É por isso que existe essa relação e é por isso que tantos filmes, como “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg, têm esse lado mais perverso, de abusar de coisas menos aceitáveis aos olhos da normatividade.

sábado, 24 de maio de 2014

De Olhos Bem Abertos: Marcos Nogueira, jornalista e voyeur


Por Gabriel Fabri

No último longa-metragem de Stanley Kubrick, "De Olhos Bem Fechados", o personagem de Tom Cruise, um médico bem sucedido, vive uma estranha e erótica jornada madrugada adentro. O filme é uma adaptação de "Breve Romance de Um Sonho", de Arthur Schnitzler, e transporta a aventura na Viena do início do século XX para Nova York, no final desse período. Nessa história que poderia se passar em qualquer cidade do mundo, em qualquer época, o personagem encontra uma sedutora (e também assustadora) sociedade secreta do sexo.

Marcos Nogueira, jornalista e ex-editor da revista VIP, visitou orgias no Brasil e ao redor do mundo para escrever o livro-reportagem "Sociedade Secreta do Sexo" (Editora Leya). Participou, como voyeur, de festas das mais exclusivas, daquelas com seleção minuciosa para entrar e até locais secretos, revelados um pouco antes da hora do encontro. 

Se a associação do nome do livro de Nogueira com o longa-metragem de Kubrick parece impossível de não ser feita, é verdade que o filme é uma inspiração estética para muitas dessas festas. Mas Nogueira afirma que não passa disso. "Não rolam rituais macabros, e todos sabem quem são as pessoas atrás das máscaras". 
 
Cena de "De Olhos Bem Fechados"
 
Sadomasoquismo, quando aparece, fica restrito à fantasia ou a apresentações de dançarinos contratados. Na primeira "reunião" citada no livro, por exemplo, acontece um show fetichista, em que uma atriz é amarrada e pendurada num gancho, para criar um clima na festa como o do filme. Após essa apresentação, vale ressaltar, começa a tocar a mesma música de György Ligeti (Musica Ricercata II) usada na obra de Kubrick em um de seus momentos cruciais.

O jornalista afirma que a expressão "sociedade secreta" veio, a priori, de maneira metafórica. "Seria um jeito de tratar de um grupo que tem seus códigos próprios e foge do holofotes por razões um tanto óbvias". Mas ele logo descobriu que os "swingers e afins" se organizam mesmo em comunidades fechadas.

Como toda sociedade tem suas regras, com essa não poderia ser diferente. Nogueira enumera as principais: tudo precisa ser consentido e consensual; a negociação entre os casais é sempre feita pelas mulheres; é preciso discrição com as pessoas de fora; cortesia e educação são sempre bem vindos. Quem tiver bom senso, também não fará nada que cause ciúmes no próprio parceiro. Afinal, o swing pode ser considerado um "adultério consentido", com a autorização - e até a presença - do outro membro do casal.

O casamento monogâmico entre um homem e uma mulher é considerado sagrado nesse meio, para a surpresa de muitos. Se o nome "swing" é relacionado ao estilo de jazz, por causa da liberdade nos movimentos da dança,  a liberdade nessa "dança" tem limites, que são definidos pelo próprio casal (ou casais).

Lançamento do livro no bar Estônia foi marcado pela presença de leitores mascarados

E como ficou o jornalista diante de tudo isso? No livro e em seu blog, Nogueira alega ter participado sim das orgias, mas como voyeur. Ou seja, ficou só chupando os dedos, observando. E isso configura também uma participação importante: como o swinger é um exibicionista, a figura do voyeur é essencial para a dinâmica. Quanto à apuração, Marcos conta que não foi fácil. "É desafiador porque coloca você em contato com fantasias às quais você não sabe como vai reagir. Mas sem dúvida é prazeroso". 

O que mais surpreendeu Nogueira durante a apuração foi justamente o conservadorismo nessas comunidades. A homossexualidade masculina é um forte tabu. E, caso um parceiro faça algo sem o consentimento do outro, "configura-se uma traição tão grave quanto em qualquer relação monogâmica". O jornalista sintetiza: "o swing, afinal, é um meio que alguns casais encontram para dar vazão a certas fantasias sem abrir mão da monogamia". 

Entretanto, se existe conservadorismo nessas redes sociais, a sua presença fora delas é o motivo de tanta discrição. Marcos acredita que a maneira conservadora como a sociedade vê o sexo tende a aumentar e diminuir dependendo do ciclo histórico, mas que o forte conservadorismo de hoje pode ser menor no futuro. "Ele sempre diminui quando aumenta o conhecimento", ressalta o jornalista.

"Depois de conviver brevemente com os swingers, entendi que seu modo de vida só diz respeito a eles mesmos". Marcos Nogueira quebrou os preconceitos que tinha em relação a esse grupo e torce para que os leitores de "Sociedade Secreta do Sexo" também façam o mesmo. "Espero que o livro faça algumas pessoas encararem com mais naturalidade certas coisas das quais elas têm medo ou preconceito por pura falta de conhecimento", conclui. Foi, pelo menos, o que aconteceu com ele.

Livro:
Sociedade Secreta do Sexo
Marcos Nogueira
Editora Leya
R$ 34,90