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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nova temporada de "O Negócio" estreia na HBO



Por Gabriel Fabri

O mercado brasileiro de séries de televisão, impulsionado pela lei da TV paga de 2011, ainda é pequeno. Entretanto, começam a aparecer aos poucos produtos audiovisuais muito interessantes a dividir o horário nobre com os prestigiados seriados norte-americanos. Um exemplo é a série "O Negócio", criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, uma produção da HBO Latin América que começou a sua segunda temporada no final de agosto.

Filmados em São Paulo, os episódios acompanham a rotina da prostituta Karen (Rafaela Mandelli), uma mulher na casa dos trinta anos e, portanto, já desvalorizada no mercado da prostituição. Nas mãos de Ariel (Guilherme Weber), o seu "booker" (nome mais elegante para o vulgar "cafetão"), ela se vê preterida pelas profissionais mais jovens. Então, resolve virar a mesa e assumir o jogo, tentando se tornar independente da relação de exploração centralizada na figura do agenciador. Mas como uma mulher com a sua idade pode conseguir programas fora desse esquema clássico, sem "rodar bolsinha" na rua ou nas baladas? Karen percebe que a solução está na frente dos olhos de todo mundo: o marketing.
Junto com a sua amiga Luna (Juliana Schalch) e, mais para frente, somando esforços com a socialite Magali (Michelle Batista), elas criam a empresa Oceano Azul e começam a bolar estratégias para atrair mais clientes e fazê-los pagar por mais. Isso, tendo todos os problemas da vida pessoal para resolver. Luna é a mais enrolada: faz-se passar por milionária para arrumar um marido rico, enquanto finge para a família ter uma vida completamente diferente e um namoro com o melhor amigo. Fingir um orgasmo é a parte mais fácil de todo o teatro.

Longe de retratar a figura da prostituta como uma pobre coitada, explorada pela sociedade, "O Negócio" apresenta três personagens inteligentes, determinadas e que sabem o que fazem. Evitando "glamourizar" demais o ofício, a série aborda os preconceitos com a profissão dentro da sociedade - merece destaque as caçadas moralistas de uma promotora - e os preconceitos dentro da vida social das garotas, além dos conflitos com os homens que controlam a profissão - não os clientes, mas sim os tais "bookers". O bom é que "O Negócio" trata da prostituição sem preconceitos ou tabus.

Com um humor sutil, mas sempre presente, o seriado lembra o clássico da HBO norte-americana, "Sex and The City". Mulheres independentes falando sobre homens, mulheres e problemas pessoais, com cenas de sexo explícito e algumas intrigas. A diferença que torna "O Negócio" muito mais interessante é o foco no empreendedorismo, tema central da trama, aplicado a um assunto pouco discutido e bastante moralizado na sociedade. Estratégias diferentes a cada episódio, somados com o tudo o que já foi mencionado, garantem um bom entretenimento para as noites de domingo.

sábado, 24 de maio de 2014

De Olhos Bem Abertos: Marcos Nogueira, jornalista e voyeur


Por Gabriel Fabri

No último longa-metragem de Stanley Kubrick, "De Olhos Bem Fechados", o personagem de Tom Cruise, um médico bem sucedido, vive uma estranha e erótica jornada madrugada adentro. O filme é uma adaptação de "Breve Romance de Um Sonho", de Arthur Schnitzler, e transporta a aventura na Viena do início do século XX para Nova York, no final desse período. Nessa história que poderia se passar em qualquer cidade do mundo, em qualquer época, o personagem encontra uma sedutora (e também assustadora) sociedade secreta do sexo.

Marcos Nogueira, jornalista e ex-editor da revista VIP, visitou orgias no Brasil e ao redor do mundo para escrever o livro-reportagem "Sociedade Secreta do Sexo" (Editora Leya). Participou, como voyeur, de festas das mais exclusivas, daquelas com seleção minuciosa para entrar e até locais secretos, revelados um pouco antes da hora do encontro. 

Se a associação do nome do livro de Nogueira com o longa-metragem de Kubrick parece impossível de não ser feita, é verdade que o filme é uma inspiração estética para muitas dessas festas. Mas Nogueira afirma que não passa disso. "Não rolam rituais macabros, e todos sabem quem são as pessoas atrás das máscaras". 
 
Cena de "De Olhos Bem Fechados"
 
Sadomasoquismo, quando aparece, fica restrito à fantasia ou a apresentações de dançarinos contratados. Na primeira "reunião" citada no livro, por exemplo, acontece um show fetichista, em que uma atriz é amarrada e pendurada num gancho, para criar um clima na festa como o do filme. Após essa apresentação, vale ressaltar, começa a tocar a mesma música de György Ligeti (Musica Ricercata II) usada na obra de Kubrick em um de seus momentos cruciais.

O jornalista afirma que a expressão "sociedade secreta" veio, a priori, de maneira metafórica. "Seria um jeito de tratar de um grupo que tem seus códigos próprios e foge do holofotes por razões um tanto óbvias". Mas ele logo descobriu que os "swingers e afins" se organizam mesmo em comunidades fechadas.

Como toda sociedade tem suas regras, com essa não poderia ser diferente. Nogueira enumera as principais: tudo precisa ser consentido e consensual; a negociação entre os casais é sempre feita pelas mulheres; é preciso discrição com as pessoas de fora; cortesia e educação são sempre bem vindos. Quem tiver bom senso, também não fará nada que cause ciúmes no próprio parceiro. Afinal, o swing pode ser considerado um "adultério consentido", com a autorização - e até a presença - do outro membro do casal.

O casamento monogâmico entre um homem e uma mulher é considerado sagrado nesse meio, para a surpresa de muitos. Se o nome "swing" é relacionado ao estilo de jazz, por causa da liberdade nos movimentos da dança,  a liberdade nessa "dança" tem limites, que são definidos pelo próprio casal (ou casais).

Lançamento do livro no bar Estônia foi marcado pela presença de leitores mascarados

E como ficou o jornalista diante de tudo isso? No livro e em seu blog, Nogueira alega ter participado sim das orgias, mas como voyeur. Ou seja, ficou só chupando os dedos, observando. E isso configura também uma participação importante: como o swinger é um exibicionista, a figura do voyeur é essencial para a dinâmica. Quanto à apuração, Marcos conta que não foi fácil. "É desafiador porque coloca você em contato com fantasias às quais você não sabe como vai reagir. Mas sem dúvida é prazeroso". 

O que mais surpreendeu Nogueira durante a apuração foi justamente o conservadorismo nessas comunidades. A homossexualidade masculina é um forte tabu. E, caso um parceiro faça algo sem o consentimento do outro, "configura-se uma traição tão grave quanto em qualquer relação monogâmica". O jornalista sintetiza: "o swing, afinal, é um meio que alguns casais encontram para dar vazão a certas fantasias sem abrir mão da monogamia". 

Entretanto, se existe conservadorismo nessas redes sociais, a sua presença fora delas é o motivo de tanta discrição. Marcos acredita que a maneira conservadora como a sociedade vê o sexo tende a aumentar e diminuir dependendo do ciclo histórico, mas que o forte conservadorismo de hoje pode ser menor no futuro. "Ele sempre diminui quando aumenta o conhecimento", ressalta o jornalista.

"Depois de conviver brevemente com os swingers, entendi que seu modo de vida só diz respeito a eles mesmos". Marcos Nogueira quebrou os preconceitos que tinha em relação a esse grupo e torce para que os leitores de "Sociedade Secreta do Sexo" também façam o mesmo. "Espero que o livro faça algumas pessoas encararem com mais naturalidade certas coisas das quais elas têm medo ou preconceito por pura falta de conhecimento", conclui. Foi, pelo menos, o que aconteceu com ele.

Livro:
Sociedade Secreta do Sexo
Marcos Nogueira
Editora Leya
R$ 34,90