quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Liberdade tatuada
Por Priscila Kesselring
O filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, estreou no início do ano, mas até agora é tema de debates e resenhas de amantes do cinema - e da liberdade humana.
O longa se passa nos anos 1970 no Brasil e mostra um grupo de atores em Olinda que utilizam espetáculos escrachados como forma de afrontar a repressão da ditadura militar.
Nesse contexto, o soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) se apaixona pelo líder do grupo, Clécio (Irandhir Santos). Um garoto de 18 anos que muda a vida de Clécio.
É marcante - como uma tatuagem - o encontro de mundos, o militar com a ditadura, rigidez e atrocidades, e o mundo do cabaré e da arte do Chão de Estrelas, com sua subversão e alegria.
O filme é um autêntico "tapa na cara" contra o falso moralismo de vários tipos de corpos sociais e, ao mesmo tempo, a demonstração de liberdade da busca do viver em simplicidade com graça e reverência.
Em muitos momentos, as cenas do cabaré são arrastadas, movimento contrário à intensidade a que a narrativa se propunha. Entretanto, as cenas de sexo entre Clécio e Fininha fazem uma contraposição forte a essa languidez, mostrando a política do movimento dos corpos.
Do Festival de Gramado, Tatuagem saiu com os prêmios de melhor filme (do júri e da crítica), trilha sonora e ator (Irandhir Santos). Além disso, foi laureado com seis troféus no Festival do Rio. Para quem ainda não conferiu, fica aqui a dica para o fim de semana.
“Hoje eu quero voltar sozinho” é o representante do Brasil no Oscar 2015
O longa-metragem indicado pela comissão do Ministério da Cultura para concorrer a melhor filme estrangeiro no Oscar de 2015 é “Hoje eu quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro. Ele aborda a história de Leonardo, um adolescente cego e homossexual que tenta lidar com a limitação e a superproteção da mãe. No longa, é retratada a busca do protagonista pela independência. O cotidiano de Leonardo muda quando aparece Gabriel, um colega de recém-chegado na cidade que o ajuda a descobrir mais sobre si mesmo e sua sexualidade.
Com uma linguagem sensível, o filme ganhou o prêmio da crítica internacional no último Festival de Berlim e, na disputa para representar o Brasil na premiação, concorreu com outras dezessete produções culturais, entre elas, “Tatuagem” de Hilton Lacerda, e “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia.
“Hoje eu quero voltar sozinho” ganhou o prêmio Teddy Award, dedicado a produções com a temática homossexual. Essa é a prova da atenção que o júri do Festival de Berlim está dando para os filmes de temática gay.
Esse é um filme de grandes descobertas: o amor e o sexo. No entanto, essas descobertas do garoto gay e cego são tratadas de maneira simples, sem cuidados ou delicadezas. O longa se destaca ao tratar as particularidades do protagonista como trataria as especificidades físicas e de temperamento de qualquer adolescente.
É incrível que um filme como esse, que trata de homossexualidade e deficiência, esteja derrubando barreiras e sendo reconhecido da maneira que merece. “Hoje eu quero voltar sozinho” foi o escolhido entre tantos outros filmes para receber prêmios. Isso prova que está acontecendo uma importante e significativa mudança de mentalidade na sociedade.
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Camila Forte,
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Os Sonhadores: o erotismo em segundo plano
Por Beatriz Coppi
Estrelado por Eva Green, Micheal Pitt e Henri Laglois, “Os Sonhadores” se passa durante os movimentos estudantis de Paris, mais precisamente em 1968. É um filme sobre a vida de Matthew, um estudante americano que vai para Paris estudar francês, com os irmãos gêmeos Theo e Isabelle, próximo quase em excesso conforme os padrões morais. Eles têm uma relação bastante sensual, apesar de não terem relações sexuais de fato, por exemplo. Eles, inclusive, dormem juntos e nus, apesar de nunca de fato cometerem incesto.
Naturalmente, o trio começa a nutrir certa curiosidade um pelo outro, e, depois de muita aproximação, o sexo entre os três acaba surgindo de forma lúdica e inocente, naturalmente, de forma que, mesmo polêmico, não soe apelativo.
Dessa forma, é perceptível que, ao contrário do que uma primeira impressão pode indicar, o tema do filme não é o incesto ou a quebra de tabus. A sexualidade dos irmãos, por exemplo, está muito mais nos atores do que nos personagens em si, sendo que para estes sobra a inocência de demonstrarem, na visão do espectador, sensualidade, mas sem a real intenção de fazê-lo.
O filme é nostálgico, mas possui um discurso novo e atual, ainda que tenha sido filmado em 2003 (há não muito tempo atrás). Uma prova disso é a construção do personagem de Theo questiona o sistema com todas as formas, mas não consegue acompanhar os protestos que acontecem ao seu lado, muito parecido com o que vemos no ápice das redes sociais.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Nova temporada de "O Negócio" estreia na HBO
O mercado brasileiro de séries de televisão, impulsionado pela lei da TV paga de 2011, ainda é pequeno. Entretanto, começam a aparecer aos poucos produtos audiovisuais muito interessantes a dividir o horário nobre com os prestigiados seriados norte-americanos. Um exemplo é a série "O Negócio", criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, uma produção da HBO Latin América que começou a sua segunda temporada no final de agosto.
Filmados em São Paulo, os episódios acompanham a rotina da prostituta Karen (Rafaela Mandelli), uma mulher na casa dos trinta anos e, portanto, já desvalorizada no mercado da prostituição. Nas mãos de Ariel (Guilherme Weber), o seu "booker" (nome mais elegante para o vulgar "cafetão"), ela se vê preterida pelas profissionais mais jovens. Então, resolve virar a mesa e assumir o jogo, tentando se tornar independente da relação de exploração centralizada na figura do agenciador. Mas como uma mulher com a sua idade pode conseguir programas fora desse esquema clássico, sem "rodar bolsinha" na rua ou nas baladas? Karen percebe que a solução está na frente dos olhos de todo mundo: o marketing.
Junto com a sua amiga Luna (Juliana Schalch) e, mais para frente, somando esforços com a socialite Magali (Michelle Batista), elas criam a empresa Oceano Azul e começam a bolar estratégias para atrair mais clientes e fazê-los pagar por mais. Isso, tendo todos os problemas da vida pessoal para resolver. Luna é a mais enrolada: faz-se passar por milionária para arrumar um marido rico, enquanto finge para a família ter uma vida completamente diferente e um namoro com o melhor amigo. Fingir um orgasmo é a parte mais fácil de todo o teatro.
Longe de retratar a figura da prostituta como uma pobre coitada, explorada pela sociedade, "O Negócio" apresenta três personagens inteligentes, determinadas e que sabem o que fazem. Evitando "glamourizar" demais o ofício, a série aborda os preconceitos com a profissão dentro da sociedade - merece destaque as caçadas moralistas de uma promotora - e os preconceitos dentro da vida social das garotas, além dos conflitos com os homens que controlam a profissão - não os clientes, mas sim os tais "bookers". O bom é que "O Negócio" trata da prostituição sem preconceitos ou tabus.
Com um humor sutil, mas sempre presente, o seriado lembra o clássico da HBO norte-americana, "Sex and The City". Mulheres independentes falando sobre homens, mulheres e problemas pessoais, com cenas de sexo explícito e algumas intrigas. A diferença que torna "O Negócio" muito mais interessante é o foco no empreendedorismo, tema central da trama, aplicado a um assunto pouco discutido e bastante moralizado na sociedade. Estratégias diferentes a cada episódio, somados com o tudo o que já foi mencionado, garantem um bom entretenimento para as noites de domingo.
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