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| Cena de "Ninfomaníaca - Volume II" |
Por Camila Forte
Homens que se encontram ao redor de um lago para fazerem sexo. Garotas que viajam para festejar de biquíni no verão californiano e se envolvem com um perigoso traficante. Uma estudante universitária que está descobrindo a sua sexualidade e começa a se sentir atraída por uma mulher de cabelo azul.
Há pelo menos três pontos em comum entre esses enredos: todos deram origem a alguns dos filmes mais polêmicos de 2013; esbanjam sexualidade, quando não de cenas de sexo explícito; e os três figuram no topo da lista dos melhores do ano da revista francesa Cahiers du Cinema (publicação que no passado teve influência inegável na história da sétima arte), desbancando concorrentes como os oscarizáveis “Lincoln”, de Spielberg, e “Gravidade”, de Cuarón.
Estamos falando, é claro, de “Um Estranho no Lago”, “Spring Breakers – Garotas Perigosas” e “Azul é a Cor Mais Quente”, respectivamente. Dificilmente alguém discutirá a produção de cinema de 2013 sem citar um desses badalados e controversos longas-metragens, dois deles premiados no Festival de Cannes (o terceiro levou a cobiçada Palma de Ouro, o principal prêmio). Injusto não destacar o ainda mais polêmico “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, entre os principais filmes do ano passado (a obra começou a chegar aos cinemas a partir do dia 25 de dezembro – sim, no natal – repleto de mistério e um poderoso marketing, mas entrou mesmo no mercado mundial no início de 2014).
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| Divulgação de "Spring Breakers" |
A questão é: o mundo pode até estar mais conservador, mas com certeza o cinema tem encontrado criativas maneiras de provocá-lo com qualidade. Chama a atenção que os três filmes na lista da Cahiers sejam tão, digamos, picantes. Mas o erotismo no cinema não é novidade, e já esteve presente em clássicos que vão do pop “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, ao hermético “Je Vous Salue, Marie”, de Jean-Luc Godard.
Para conversar sobre o tema, entrevistamos Clemara Bidarra, Doutora em Comunicação e Letras pela UNESP/Araraquara e autora do livro “Erotismo: múltiplas faces” (LTCE). Para ela, a produção do cinema erótico hoje permite uma ruptura com o que é previsível e esperado pelo público.
Confira a entrevista:
De maneira sintética, o que é erotismo?
O erotismo diz respeito à sexualidade humana. Toda vez que você pensar em relacionamento sexual humano, você está falando em relacionamento erótico.
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| Cena de "Um Estranho no Lago" |
Muitos confundem erótico com pornográfico. Para você, qual é a distinção?
Existe uma tendência da maioria dos teóricos de tentar decodificar erótico e pornográfico como sendo instâncias muito distintas. Muito mais por uma questão de vulgaridade e nobreza: o vulgar é o pornográfico, e o que é mais nobre, mais artístico, é o erótico. Eu diria que dentre essas classificações hoje, a mais expressiva é que, enquanto o erótico aborda as coisas mais sutis da relação, o pornográfico aborda as mais explícitas.
Mas a Camile Paglia, que é uma teórica que eu gosto muito, costuma dizer que a diferença entre erótico e pornográfico está dependendo do lugar da parede em que você se encontra. Se é você que está praticando o ato, vai chamar aquilo de erótico; se os outros estão assistindo, vão chamar aquilo de pornográfico.
Ano passado nós vimos erotismo em muitos dos principais
filmes do ano. O cinema está ficando menos conservador? E a sociedade, em
relação a esse tipo de conteúdo?
Eu não acho que o cinema esteja ficando menos conservador.
Na verdade, ele sempre foi muito pouco conservador. Mesmo na época da
censura do Código Hays, o cinema sempre tentava burlar as
normatividades. Ele continua dentro do mesmo mecanismo. O que acontece é que a sociedade acaba tendo uma necessidade de outro viés de olhar. Por isso acho que esse temática vem sido muito repetida recentemente.
Como você avalia essa produção recente?
Ela é muito madura. A produção recente tem enfoques que não são só de um erotismo que tem a ver com um olhar perpendicular, de cima para baixo. Então eles saem um pouco dos guetos, como "Um Estranho no Lago" e o
"Ninfomaníaca", por exemplo. É sempre muito interessante sair do
comportamento esperado, previsível. Esses filmes são uma ruptura com
esse olhar, são experiências mais novas, que estão sendo trazidas de
eixos diferenciados.
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| Cena de ''Azul é a Cor Mais Quente" |
Quais as principais características do erotismo no cinema?
Se
você for pegar nos anos 1930, as pessoas falavam que "nada mais erótico
do que um homem galanteador dizendo para a mulher que adora ouvir a voz
dela". Isso era o máximo de erotismo que se podia ter. Agora, quando
você pensa hoje, são aquelas características que fazem com que você
desperte o seu olhar para um desejo que você não realizaria na sua vida,
então você deixa que o cinema faça isso por você. O cinema vai
funcionar como uma catarse.
Por exemplo, "Um Estranho no
Lago". Algumas pessoas podem achar absolutamente indecoroso uma praia
específica para "pegação". Só que esses lugares existem. O que acontece?
Dentro desse mecanismo do olhar erótico, esses lugares são trazidos à
tona para um olhar novo com uma característica antes não visualizada,
que seria esse lado homossexual da pegação. E hoje você vê isso com
naturalidade. Inclusive, é interessante como os personagens dentro do
filme tem olhares distintos de referência: um é o voyeur, outro é
passivo, o ativo, o calado... Esses personagens todos dão um olhar novo para essa competência erótica. Eles fazem com que algumas coisas saiam dos nichos mais "obscuros" e são vistos sob uma perspectiva nova.
Em um cinema, o espectador se coloca na posição de voyeur. Um filme pode ser considerado, por natureza, erótico, na medida em que as pessoas que assistem a um longa-metragem estão necessariamente desejando a experiência?
Com certeza, todo espectador é um grande voyeur. Inclusive, sob o ponto de vista que a gente acaba substituindo a representação icônica do buraco da fechadura para ser espiado, que é a representação do
voyeur (ou o
binóculo, para ver ao longe), pela tela. Ao invés de espiar pelo buraco você
espia pela tela do cinema, do computador, do celular – não só vendo filmes, mas
também acessando as redes sociais. Isso tudo é uma grande tendência de
voyeurismo: o homem contemporâneo é um grande
voyeur.
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| Cena de 'Ninfomaníaca - Volume II' |
Tratando de erotismo, qual você considera o filme mais icônico?
Ai é fogo, né? É perguntar de que filho você gosta mais (risos). Temos várias possibilidades, um que se dá sob a perspectiva do alimento, do toque, do olhar... difícil elencar qual mais importante. Acredito que “A Lei do Desejo” do Almodóvar é um grande marco, “9 e ½ semanas de amor” também, “Anticristo” do Lars Von Trier, e “Je Vous Salue, Marie”, do Godard: filmes cujo erotismo aparece sob uma perspectiva muito diferente
em cada um
deles. Enquanto representação icônica, todos esses e milhares de outros
têm
características bastante marcantes.
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| Cena de A Lei do Desejo, de Almodóvar |
Algumas cenas eróticas no cinema viraram clichê?
O clichê é um mecanismo bastante saudável quando a gente fala de linguagem, porque ele faz com que você reconheça alguns estereótipos mais mecânicos. E eu acredito sim que têm muitas cenas que viraram clichê. Se você pensar no “Último Tango em Paris”, nunca se vendeu tanta manteiga (risos).
Pouca gente sabe, mas o erotismo também está relacionado com a morte. Como se dá essa relação de morte e prazer?
A relação entre morte e erotismo foi muito bem trabalhada por George Bataille. Segundo ele, quando você alcança o êxtase, você na verdade atinge a morte, que é como se fosse o equilíbrio de todos os desejos compulsivos que você tem. Então você precisa viver ao máximo e para começar a se recarregar é como se você morresse e tivesse uma nova vida. É por isso que existe essa relação e é por isso que tantos filmes, como “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg, têm esse lado mais perverso, de abusar de coisas menos aceitáveis aos olhos da normatividade.