quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Liberdade tatuada



Por Priscila Kesselring

O filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, estreou no início do ano, mas até agora é tema de debates e resenhas de amantes do cinema - e da liberdade humana.

O longa se passa nos anos 1970 no Brasil e mostra um grupo de atores em Olinda que utilizam espetáculos escrachados como forma de afrontar a repressão da ditadura militar.

Nesse contexto, o soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) se apaixona pelo líder do grupo, Clécio (Irandhir Santos). Um garoto de 18 anos que muda a vida de Clécio.

É marcante - como uma tatuagem - o encontro de mundos, o militar com a ditadura, rigidez e atrocidades, e o mundo do cabaré e da arte do Chão de Estrelas, com sua subversão e alegria.

O filme é um autêntico "tapa na cara" contra o falso moralismo de vários tipos de corpos sociais e, ao mesmo tempo, a demonstração de liberdade da busca do viver em simplicidade com graça e reverência.

Em muitos momentos, as cenas do cabaré são arrastadas, movimento contrário à intensidade a que a narrativa se propunha. Entretanto, as cenas de sexo entre Clécio e Fininha fazem uma contraposição forte a essa languidez, mostrando a política do movimento dos corpos.

Do Festival de Gramado, Tatuagem saiu com os prêmios de melhor filme (do júri e da crítica), trilha sonora e ator (Irandhir Santos). Além disso, foi laureado com seis troféus no Festival do Rio. Para quem ainda não conferiu, fica aqui a dica para o fim de semana.

“Hoje eu quero voltar sozinho” é o representante do Brasil no Oscar 2015



Por Camila Forte


O longa-metragem indicado pela comissão do Ministério da Cultura para concorrer a melhor filme estrangeiro no Oscar de 2015 é “Hoje eu quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro. Ele aborda a história de Leonardo, um adolescente cego e homossexual que tenta lidar com a limitação e a superproteção da mãe. No longa, é retratada a busca do protagonista pela independência. O cotidiano de Leonardo muda quando aparece Gabriel, um colega de recém-chegado na cidade que o ajuda a descobrir mais sobre si mesmo e sua sexualidade.

Com uma linguagem sensível, o filme ganhou o prêmio da crítica internacional no último Festival de Berlim e, na disputa para representar o Brasil na premiação, concorreu com outras dezessete produções culturais, entre elas, “Tatuagem” de Hilton Lacerda, e “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia.

“Hoje eu quero voltar sozinho” ganhou o prêmio Teddy Award, dedicado a produções com a temática homossexual. Essa é a prova da atenção que o júri do Festival de Berlim está dando para os filmes de temática gay.



Esse é um filme de grandes descobertas: o amor e o sexo. No entanto, essas descobertas do garoto gay e cego são tratadas de maneira simples, sem cuidados ou delicadezas. O longa se destaca ao tratar as particularidades do protagonista como trataria as especificidades físicas e de temperamento de qualquer adolescente.

É incrível que um filme como esse, que trata de homossexualidade e deficiência, esteja derrubando barreiras e sendo reconhecido da maneira que merece. “Hoje eu quero voltar sozinho” foi o escolhido entre tantos outros filmes para receber prêmios. Isso prova que está acontecendo uma importante e significativa mudança de mentalidade na sociedade.

Os Sonhadores: o erotismo em segundo plano


Por Beatriz Coppi

Estrelado por Eva Green, Micheal Pitt e Henri Laglois, “Os Sonhadores” se passa durante os movimentos estudantis de Paris, mais precisamente em 1968. É um filme sobre a vida de Matthew, um estudante americano que vai para Paris estudar francês, com os irmãos gêmeos Theo e Isabelle, próximo quase em excesso conforme os padrões morais. Eles têm uma relação bastante sensual, apesar de não terem relações sexuais de fato, por exemplo. Eles, inclusive, dormem juntos e nus, apesar de nunca de fato cometerem incesto.

Naturalmente, o trio começa a nutrir certa curiosidade um pelo outro, e, depois de muita aproximação, o sexo entre os três acaba surgindo de forma lúdica e inocente, naturalmente, de forma que, mesmo polêmico, não soe apelativo.

Dessa forma, é perceptível que, ao contrário do que uma primeira impressão pode indicar, o tema do filme não é o incesto ou a quebra de tabus. A sexualidade dos irmãos, por exemplo, está muito mais nos atores do que nos personagens em si, sendo que para estes sobra a inocência de demonstrarem, na visão do espectador, sensualidade, mas sem a real intenção de fazê-lo.

O filme é nostálgico, mas possui um discurso novo e atual, ainda que tenha sido filmado em 2003 (há não muito tempo atrás). Uma prova disso é a construção do personagem de Theo questiona o sistema com todas as formas, mas não consegue acompanhar os protestos que acontecem ao seu lado, muito parecido com o que vemos no ápice das redes sociais.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nova temporada de "O Negócio" estreia na HBO



Por Gabriel Fabri

O mercado brasileiro de séries de televisão, impulsionado pela lei da TV paga de 2011, ainda é pequeno. Entretanto, começam a aparecer aos poucos produtos audiovisuais muito interessantes a dividir o horário nobre com os prestigiados seriados norte-americanos. Um exemplo é a série "O Negócio", criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, uma produção da HBO Latin América que começou a sua segunda temporada no final de agosto.

Filmados em São Paulo, os episódios acompanham a rotina da prostituta Karen (Rafaela Mandelli), uma mulher na casa dos trinta anos e, portanto, já desvalorizada no mercado da prostituição. Nas mãos de Ariel (Guilherme Weber), o seu "booker" (nome mais elegante para o vulgar "cafetão"), ela se vê preterida pelas profissionais mais jovens. Então, resolve virar a mesa e assumir o jogo, tentando se tornar independente da relação de exploração centralizada na figura do agenciador. Mas como uma mulher com a sua idade pode conseguir programas fora desse esquema clássico, sem "rodar bolsinha" na rua ou nas baladas? Karen percebe que a solução está na frente dos olhos de todo mundo: o marketing.
Junto com a sua amiga Luna (Juliana Schalch) e, mais para frente, somando esforços com a socialite Magali (Michelle Batista), elas criam a empresa Oceano Azul e começam a bolar estratégias para atrair mais clientes e fazê-los pagar por mais. Isso, tendo todos os problemas da vida pessoal para resolver. Luna é a mais enrolada: faz-se passar por milionária para arrumar um marido rico, enquanto finge para a família ter uma vida completamente diferente e um namoro com o melhor amigo. Fingir um orgasmo é a parte mais fácil de todo o teatro.

Longe de retratar a figura da prostituta como uma pobre coitada, explorada pela sociedade, "O Negócio" apresenta três personagens inteligentes, determinadas e que sabem o que fazem. Evitando "glamourizar" demais o ofício, a série aborda os preconceitos com a profissão dentro da sociedade - merece destaque as caçadas moralistas de uma promotora - e os preconceitos dentro da vida social das garotas, além dos conflitos com os homens que controlam a profissão - não os clientes, mas sim os tais "bookers". O bom é que "O Negócio" trata da prostituição sem preconceitos ou tabus.

Com um humor sutil, mas sempre presente, o seriado lembra o clássico da HBO norte-americana, "Sex and The City". Mulheres independentes falando sobre homens, mulheres e problemas pessoais, com cenas de sexo explícito e algumas intrigas. A diferença que torna "O Negócio" muito mais interessante é o foco no empreendedorismo, tema central da trama, aplicado a um assunto pouco discutido e bastante moralizado na sociedade. Estratégias diferentes a cada episódio, somados com o tudo o que já foi mencionado, garantem um bom entretenimento para as noites de domingo.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uni-duni-tê

Cena do filme "Tatuagem"
Por Beatriz Coppi

Todos os anos, são produzidos milhares de longa metragens com ou sem cenas de sexo. Alguns mais recentes, entretanto, têm provocado muitas discussões, não só por tratarem de homossexuais mas pelo forte conteúdo de cenas eróticas. A gente separou e resumiu cinco lançados nos últimos meses, sendo alguns deles já citados aqui no blog, para você decidir qual assistir (ou assistir a todos, por que não?):


Ninfomaníaca I e II, de Lars von Trier


Ninfomaníaca, grande sucesso de 2014, originalmente foi filmado para ser apenas um longa. Depois, a produção achou que o filme ficou longo demais e o dividiu em duas partes. Em ambos, é vista muito bem trabalhada a questão da autoafirmação sexual, o que era um problema para a protagonista. Até que ela assume ser obcecada por sexo desde criança e, no decorrer do filme, ela conta suas histórias e os atores do filme dão vida aos episódios, inclusive nas cenas mais picantes.


Azul é a cor mais quente, de Abdellatif Kechiche


Neste filme, a protagonista Adéle tem dúvidas sobre sua sexualidade e se apaixona pela primeira vez por uma mulher (que tem o cabelo pintado de azul). Como não podia contar para ninguém, ela mergulha nessa paixão e em suas questões internas. O aspecto do filme mais intenso ainda é que a personagem precisa enfrentar os preconceitos e entra em guerra com a própria família.


Tatuagem, de Hilton Lacerda


Com espaço e tempo em Recife durante a ditadura militar, “Tatuagem” conta a história de um militar que se apaixona por um líder de um grupo de teatro. Eles engatam o romance, responsável pelo erotismo no filme, mas Fininha (o militar) precisa vencer o dilema entre manter seu relacionamento homossexual ou permanecer trabalhando pela manutenção da ditadura. Um filme bastante intenso e também interessante do ponto de vista histórico.

Assista o trailer de "Tatuagem": 



Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie

Neste longa metragem, um lago nudista frequentado por homens homossexuais é o centro da trama. Frank, um dos frequentadores mais assíduos, um dia se apaixona pelo novato do lugar, Michel. E isso faz com que tudo mude de figura, não no sentido romântico, mas porque Michel, na verdade, é uma pessoa perigosa que fará com que Frank passe por vários conflitos por causa do romance.

Confira o trailer legendado de "Um Estranho no Lago":


terça-feira, 10 de junho de 2014

Sexo por toda parte! - Cobertura do 4o PopPorn Festival

Em sua 4ª edição, festival PopPorn renova com produções eróticas de diversas artes 

Atuação na edição de 2012 do festival - Foto: Reprodução
Por Priscila Kesselring

Em 2010, a jornalista Suzy Capó foi para Berlim, com o intuito de participar de um festival de cinema erótico. Lá, passou dias entre discussões sobre sexualidade e pornografia e produções cinematográficas alternativas, que fugiam do main stream do cinema erótico.

Suzy ficou tão entusiasmada com o que viu na cidade alemã, que quando voltou ao Brasil não via a hora de criar um festival semelhante. Foi aí que nasceu o PopPorn, que no último final de semana (6 a 8 de junho) chegou a sua quarta edição, no centro de São Paulo.

A cada edição, o festival vai somando temáticas e pessoas. “Hoje o PopPorn é um festival multidisciplinar, o que mostra que ele foi mudando de cara ao longo desses quatro anos”, conta Suzy em um dos corredores da Trackers, casa noturna paulistana que deu lugar ao evento - tratado como uma "virada do sexo", por ter tido 48 horas de atividades.
Imagem: Divulgação
Curtas, longas, performances, festas e debates trouxeram a heterogeneidade para o festival. A novidade deste ano foi a exposição de zines – publicações independentes de desenhos e outras técnicas – com temas eróticos.

A mostra de filmes contou com produções de países como a Alemanha, Israel e Tailândia. A idealizadora do evento, Suzy Capó, diz ter preferências pelos curta-metragens. “Os curtas são mais experimentais, são um formato que permite uma ousadia maior, em todos os sentidos, porque você não tem um comprometimento, um limite”, afirma.

De acordo com a jornalista, todos os filmes falam sobre sexo, mas das formas mais diferentes possíveis, não necessariamente a partir do sexo explícito. O longa “O Fim da Pegação”, por exemplo, é um filme gay que fala sobre o desaparecimento das “pegações públicas” – expressão usada por Suzy - ao longo dos últimos anos.

Ela afirma que se trata de um filme bastante político, pois retrataria uma certa “normatização da homossexualidade”. Ainda nesse sentido, quando questionada sobre a relação entre o PopPorn e política, ela ressalta: “o próprio fato de o festival existir, da afirmação do sexo positivo, já é algo político por si só”.

Para mais informações sobre o festival PopPorn, clique aqui.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

" O homem contemporâneo é um grande voyeur " - Entrevista Clemara Bidarra


Cena de "Ninfomaníaca - Volume II"
Por Camila Forte

Homens que se encontram ao redor de um lago para fazerem sexo. Garotas que viajam para festejar de biquíni no verão californiano e se envolvem com um perigoso traficante. Uma estudante universitária que está descobrindo a sua sexualidade e começa a se sentir atraída por uma mulher de cabelo azul.

Há pelo menos três pontos em comum entre esses enredos: todos deram origem a alguns dos filmes mais polêmicos de 2013; esbanjam sexualidade, quando não de cenas de sexo explícito; e os três figuram no topo da lista dos melhores do ano da revista francesa Cahiers du Cinema (publicação que no passado teve influência inegável na história da sétima arte), desbancando concorrentes como os oscarizáveis “Lincoln”, de Spielberg, e “Gravidade”, de Cuarón.

Estamos falando, é claro, de “Um Estranho no Lago”, “Spring Breakers – Garotas Perigosas” e “Azul é a Cor Mais Quente”, respectivamente. Dificilmente alguém discutirá a produção de cinema de 2013 sem citar um desses badalados e controversos longas-metragens, dois deles premiados no Festival de Cannes (o terceiro levou a cobiçada Palma de Ouro, o principal prêmio). Injusto não destacar o ainda mais polêmico “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, entre os principais filmes do ano passado (a obra começou a chegar aos cinemas a partir do dia 25 de dezembro – sim, no natal – repleto de mistério e um poderoso marketing, mas entrou mesmo no mercado mundial no início de 2014).


Divulgação de "Spring Breakers"

A questão é: o mundo pode até estar mais conservador, mas com certeza o cinema tem encontrado criativas maneiras de provocá-lo com qualidade. Chama a atenção que os três filmes na lista da Cahiers sejam tão, digamos, picantes. Mas o erotismo no cinema não é novidade, e já esteve presente em clássicos que vão do pop “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, ao hermético “Je Vous Salue, Marie”, de Jean-Luc Godard.

Para conversar sobre o tema, entrevistamos Clemara Bidarra, Doutora em Comunicação e Letras pela UNESP/Araraquara e autora do livro “Erotismo: múltiplas faces” (LTCE). Para ela, a produção do cinema erótico hoje permite uma ruptura com o que é previsível e esperado pelo público.

Confira a entrevista:

De maneira sintética, o que é erotismo?


O erotismo diz respeito à sexualidade humana. Toda vez que você pensar em relacionamento sexual humano, você está falando em relacionamento erótico.


Cena de "Um Estranho no Lago"

Muitos confundem erótico com pornográfico. Para você, qual é a distinção?

Existe uma tendência da maioria dos teóricos de tentar decodificar erótico e pornográfico como sendo instâncias muito distintas. Muito mais por uma questão de vulgaridade e nobreza: o vulgar é o pornográfico, e o que é mais nobre, mais artístico, é o erótico. Eu diria que dentre essas classificações hoje, a mais expressiva é que, enquanto o erótico aborda as coisas mais sutis da relação, o pornográfico aborda as mais explícitas.

Mas a Camile Paglia, que é uma teórica que eu gosto muito, costuma dizer que a diferença entre erótico e pornográfico está dependendo do lugar da parede em que você se encontra. Se é você que está praticando o ato, vai chamar aquilo de erótico; se os outros estão assistindo, vão chamar aquilo de pornográfico.

Ano passado nós vimos erotismo em muitos dos principais filmes do ano. O cinema está ficando menos conservador? E a sociedade, em relação a esse tipo de conteúdo?

Eu não acho que o cinema esteja ficando menos conservador. Na verdade, ele sempre foi muito pouco conservador. Mesmo na época da censura do Código Hays, o cinema sempre tentava burlar as normatividades. Ele continua dentro do mesmo mecanismo. O que acontece é que a sociedade acaba tendo uma necessidade de outro viés de olhar. Por isso acho que esse temática vem sido muito repetida recentemente.

Como você avalia essa produção recente?


Ela é muito madura. A produção recente tem enfoques que não são só de um erotismo que tem a ver com um olhar perpendicular, de cima para baixo. Então eles saem um pouco dos guetos, como "Um Estranho no Lago" e o "Ninfomaníaca", por exemplo. É sempre muito interessante sair do comportamento esperado, previsível. Esses filmes são uma ruptura com esse olhar, são experiências mais novas, que estão sendo trazidas de eixos diferenciados.

Cena de ''Azul é a Cor Mais Quente"


Quais as principais características do erotismo no cinema?

Se você for pegar nos anos 1930, as pessoas falavam que "nada mais erótico do que um homem galanteador dizendo para a mulher que adora ouvir a voz dela". Isso era o máximo de erotismo que se podia ter. Agora, quando você pensa hoje, são aquelas características que fazem com que você desperte o seu olhar para um desejo que você não realizaria na sua vida, então você deixa que o cinema faça isso por você. O cinema vai funcionar como uma catarse.

Por exemplo, "Um Estranho no Lago". Algumas pessoas podem achar absolutamente indecoroso uma praia específica para "pegação". Só que esses lugares existem. O que acontece? Dentro desse mecanismo do olhar erótico, esses lugares são trazidos à tona para um olhar novo com uma característica antes não visualizada, que seria esse lado homossexual da pegação. E hoje você vê isso com naturalidade. Inclusive, é interessante como os personagens dentro do filme tem olhares distintos de referência: um é o voyeur, outro é passivo, o ativo, o calado... Esses personagens todos dão um olhar novo para essa competência erótica. Eles fazem com que algumas coisas saiam dos nichos mais "obscuros" e são vistos sob uma perspectiva nova.

Em um cinema, o espectador se coloca na posição de voyeur. Um filme pode ser considerado, por natureza, erótico, na medida em que as pessoas que assistem a um longa-metragem estão necessariamente desejando a experiência?


Com certeza, todo espectador é um grande voyeur. Inclusive, sob o ponto de vista que a gente acaba substituindo a representação icônica do buraco da fechadura para ser espiado, que é a representação do voyeur (ou o binóculo, para ver ao longe), pela tela. Ao invés de espiar pelo buraco você espia pela tela do cinema, do computador, do celular – não só vendo filmes, mas também acessando as redes sociais. Isso tudo é uma grande tendência de voyeurismo: o homem contemporâneo é um grande voyeur.

Cena de 'Ninfomaníaca - Volume II'
  
Tratando de erotismo, qual você considera o filme mais icônico?

Ai é fogo, né? É perguntar de que filho você gosta mais (risos). Temos várias possibilidades, um que se dá sob a perspectiva do alimento, do toque, do olhar... difícil elencar qual mais importante. Acredito que “A Lei do Desejo” do Almodóvar é um grande marco, “9 e ½ semanas de amor” também, “Anticristo” do Lars Von Trier, e “Je Vous Salue, Marie”, do Godard: filmes cujo erotismo aparece sob uma perspectiva muito diferente em cada um deles. Enquanto representação icônica, todos esses e milhares de outros têm características bastante marcantes.

Cena de A Lei do Desejo, de Almodóvar
 
Algumas cenas eróticas no cinema viraram clichê?

O clichê é um mecanismo bastante saudável quando a gente fala de linguagem, porque ele faz com que você reconheça alguns estereótipos mais mecânicos. E eu acredito sim que têm muitas cenas que viraram clichê. Se você pensar no “Último Tango em Paris”, nunca se vendeu tanta manteiga (risos).

Pouca gente sabe, mas o erotismo também está relacionado com a morte. Como se dá essa relação de morte e prazer?

A relação entre morte e erotismo foi muito bem trabalhada por George Bataille. Segundo ele, quando você alcança o êxtase, você na verdade atinge a morte, que é como se fosse o equilíbrio de todos os desejos compulsivos que você tem. Então você precisa viver ao máximo e para começar a se recarregar é como se você morresse e tivesse uma nova vida. É por isso que existe essa relação e é por isso que tantos filmes, como “Crash – Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg, têm esse lado mais perverso, de abusar de coisas menos aceitáveis aos olhos da normatividade.

sábado, 24 de maio de 2014

De Olhos Bem Abertos: Marcos Nogueira, jornalista e voyeur


Por Gabriel Fabri

No último longa-metragem de Stanley Kubrick, "De Olhos Bem Fechados", o personagem de Tom Cruise, um médico bem sucedido, vive uma estranha e erótica jornada madrugada adentro. O filme é uma adaptação de "Breve Romance de Um Sonho", de Arthur Schnitzler, e transporta a aventura na Viena do início do século XX para Nova York, no final desse período. Nessa história que poderia se passar em qualquer cidade do mundo, em qualquer época, o personagem encontra uma sedutora (e também assustadora) sociedade secreta do sexo.

Marcos Nogueira, jornalista e ex-editor da revista VIP, visitou orgias no Brasil e ao redor do mundo para escrever o livro-reportagem "Sociedade Secreta do Sexo" (Editora Leya). Participou, como voyeur, de festas das mais exclusivas, daquelas com seleção minuciosa para entrar e até locais secretos, revelados um pouco antes da hora do encontro. 

Se a associação do nome do livro de Nogueira com o longa-metragem de Kubrick parece impossível de não ser feita, é verdade que o filme é uma inspiração estética para muitas dessas festas. Mas Nogueira afirma que não passa disso. "Não rolam rituais macabros, e todos sabem quem são as pessoas atrás das máscaras". 
 
Cena de "De Olhos Bem Fechados"
 
Sadomasoquismo, quando aparece, fica restrito à fantasia ou a apresentações de dançarinos contratados. Na primeira "reunião" citada no livro, por exemplo, acontece um show fetichista, em que uma atriz é amarrada e pendurada num gancho, para criar um clima na festa como o do filme. Após essa apresentação, vale ressaltar, começa a tocar a mesma música de György Ligeti (Musica Ricercata II) usada na obra de Kubrick em um de seus momentos cruciais.

O jornalista afirma que a expressão "sociedade secreta" veio, a priori, de maneira metafórica. "Seria um jeito de tratar de um grupo que tem seus códigos próprios e foge do holofotes por razões um tanto óbvias". Mas ele logo descobriu que os "swingers e afins" se organizam mesmo em comunidades fechadas.

Como toda sociedade tem suas regras, com essa não poderia ser diferente. Nogueira enumera as principais: tudo precisa ser consentido e consensual; a negociação entre os casais é sempre feita pelas mulheres; é preciso discrição com as pessoas de fora; cortesia e educação são sempre bem vindos. Quem tiver bom senso, também não fará nada que cause ciúmes no próprio parceiro. Afinal, o swing pode ser considerado um "adultério consentido", com a autorização - e até a presença - do outro membro do casal.

O casamento monogâmico entre um homem e uma mulher é considerado sagrado nesse meio, para a surpresa de muitos. Se o nome "swing" é relacionado ao estilo de jazz, por causa da liberdade nos movimentos da dança,  a liberdade nessa "dança" tem limites, que são definidos pelo próprio casal (ou casais).

Lançamento do livro no bar Estônia foi marcado pela presença de leitores mascarados

E como ficou o jornalista diante de tudo isso? No livro e em seu blog, Nogueira alega ter participado sim das orgias, mas como voyeur. Ou seja, ficou só chupando os dedos, observando. E isso configura também uma participação importante: como o swinger é um exibicionista, a figura do voyeur é essencial para a dinâmica. Quanto à apuração, Marcos conta que não foi fácil. "É desafiador porque coloca você em contato com fantasias às quais você não sabe como vai reagir. Mas sem dúvida é prazeroso". 

O que mais surpreendeu Nogueira durante a apuração foi justamente o conservadorismo nessas comunidades. A homossexualidade masculina é um forte tabu. E, caso um parceiro faça algo sem o consentimento do outro, "configura-se uma traição tão grave quanto em qualquer relação monogâmica". O jornalista sintetiza: "o swing, afinal, é um meio que alguns casais encontram para dar vazão a certas fantasias sem abrir mão da monogamia". 

Entretanto, se existe conservadorismo nessas redes sociais, a sua presença fora delas é o motivo de tanta discrição. Marcos acredita que a maneira conservadora como a sociedade vê o sexo tende a aumentar e diminuir dependendo do ciclo histórico, mas que o forte conservadorismo de hoje pode ser menor no futuro. "Ele sempre diminui quando aumenta o conhecimento", ressalta o jornalista.

"Depois de conviver brevemente com os swingers, entendi que seu modo de vida só diz respeito a eles mesmos". Marcos Nogueira quebrou os preconceitos que tinha em relação a esse grupo e torce para que os leitores de "Sociedade Secreta do Sexo" também façam o mesmo. "Espero que o livro faça algumas pessoas encararem com mais naturalidade certas coisas das quais elas têm medo ou preconceito por pura falta de conhecimento", conclui. Foi, pelo menos, o que aconteceu com ele.

Livro:
Sociedade Secreta do Sexo
Marcos Nogueira
Editora Leya
R$ 34,90

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Janela Indiscreta - Sobre o Blog =)



"Janela Indiscreta" é um dos mais aclamados filmes de Alfred Hitchcock.

Um longa-metragem que diz muito sobre cinema, não só por apresentar um dos maiores mestres em sua melhor forma.

Ao observar os outros, o protagonista representa um expectador de cinema.

James Stewart é um fotojornalista que, com a perna engessada, começa a observar seus vizinhos.

O binóculo, vale ressaltar, é uma das representações clássicas do voyeurismo, assim como o buraco da fechadura.

Por isso, o clássico de Hitchcock dá nome a esse blog.

O site tem o intuito reunir textos que tratam de cinema e sexualidade.

"Cinema e Erotismo", para sermos mais chiques... ou mais instigantes...

Você está preparado para espiar?

Esse blog é administrado pelos estudantes de jornalismo Beatriz Coppi, Camila Forte, Gabriel Fabri e Priscila Kesselring, da Faculdade Cásper Líbero.